Variedades Publicado em 22/02/2021
Ninguém sabia: Mulher viveu 50 anos como homem, numa época em que não se falava em transgêneros

Por Fábio Previdelli

No dia 5 de outubro de 2018, o corpo de Lourival Bezerra de Sá, de 78 anos, foi encaminhado até o Instituto de Medicina e Odontologia Legal (Imol), em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Até então, o caso compreendia mais uma autópsia, como qualquer outra. 

Entretanto, uma coisa intrigou não só os médicos como a família de Lourival: ele era um homem trans que escondeu, durante 50 anos, seu sexo biológico de todos, inclusive de seus familiares. Entenda o caso! 

O passado desconhecido de Lourival 

Lourival morreu vítima de um infarte fulminante. Seu corpo foi encaminhado até o Serviço de Verificação de Óbiro (SVO), porém, quando foi transferido até o Imol, uma médica descobriu que ele havia nascido com um gênero diferente do qual se identificava.  

Com isso, peritos iniciaram uma incessante busca por informações sobre seu passado.  Além disso tudo, um fato que corrobora com todo esse 'mistério' é que, na época que Bezerra de Sá passou a se identificar com outro gênero, a comunidade trans ainda não contava com direitos reconhecidos, o que explica o motivo dele não ter documentações oficiais com seu nome masculino — ele até tinha um documento de identidade, mas o mesmo era considerado falso pelos motivos citados.  

Isso, inclusive, foi um agravante na hora de seu enterro, já que, desta forma, sua identificação não poderia ser usada para o registro de sua certidão de óbito e, como consequência, a liberação de corpo não foi autorizada. Com isso, Lourival teve que permanecer um longo tempo período no Imol até que as investigações avançassem. 

O enterro de Lourival 

Por conta do desenrolar das investigações, Bezerra de Sá teve de permanecer 158 dias no Imol do Mato Grosso. A liberação de seu corpo para sepultamento só ocorreu no dia 12 de março de 2019. Porém, engana-se quem pensa que o caso acabou por aí.  

Posteriormente, descobriu-se que Lourival nasceu como Enedina Maria de Jesus, porém, nem mesmo Enedina possuía documentos verdadeiros. Ele não tinha nenhum registro de nascimento que remetesse os nomes.  

"Pode ser um caso de identidade de gênero diversa do sexo biológico, no entanto, a investigação não pode se fechar somente nessa vertente, pretende também levantar a possibilidade dele estar fingindo uma identidade masculina para esconder alguma situação, questão de trabalho ou algum crime, por exemplo”, declarou a delegada Christiane Grossi, responsável pelas investigações, em entrevista ao G1. 

Outro ponto que chamou a atenção é que Lourival registrou seis filhos em vida, todos com documentações emitidas da forma correta, porém, com dados falsos, visto que os documentos dele não eram legais.  

De acordo com as investigações, nenhum dos filhos sabia que seu pai era um homem trans. "Ele era uma pessoa que não frequentava nem o médico, trancava portas para ir ao banheiro, e nem sequer dentro da família, alguém sabia dessa situação”, disse a delegada. 

Esse 'segredo' de Lourival só foi revelado poucos dias antes da morte. Poucos dias antes do óbito, ele contou detalhes sobre seu passado para uma cuidadora — que não teve sua identidade revelada. Os dois viviam juntos desde que ele chegou em Cuiabá, porém, segundo os investigadores, eles não mantinham uma relação amorosa.  

"Antigamente, não existia tanta formalidade para o registro de nascimento das pessoas. Hoje em dia, a pessoa já sai da maternidade com a certidão de nascimento. Então, ele não escolheu uma identidade diversa do gênero, ele criou um personagem. Alguém nasceu biologicamente mulher e não morreu, por isso o corpo está lá e não está sendo identificado. É uma questão legal, um mistério que precisa ser desvendado para que os trâmites sejam encerrados", concluiu a delegada. 

Sua história de vida 

Voltando no tempo, é possível descobrir mais detalhes sobre o passado de Lourival. O primeiro ponto é a cidade de Goiânia, em Goiás. Há 50 anos, ele conheceu por lá sua primeira companheira, Maria Olina de Souza Apollo. Juntos, registraram quatro filhos.  

De lá, eles se mudaram para Ituverava, cidade interiorana de São Paulo. Pouco depois, o casal se separou e Bezerra de Sá seguiu sozinho para Cuiabá. Foi aí que ele conheceu a cuidadora e, juntos, se mudaram para Campo Grande.  

Na capital do Estado ele exerceu diversas funções: foi pintor de paredes, corretor de imóveis e até chegou a abrir uma empresa. Além disso, Lourival também era médium de um centro espírita. Ele e a cuidadora viveram juntos por quase 40 anos, criando dois filhos.  

Segundo Ivaldirene Monteiro dos Santos, amiga da cuidadora, a mulher chegou a comentar que quando Bezerra de Sá já estava doente, tentou dar um banho nele em diversas ocasiões. Porém, ele não aceitava. Quando enfim cedeu, ela encontrou uma faixa amarrada na região dos seios de Lourival. 

Exames feitos no Imol mostram que lesões foram constatadas na região descrita pela cuidadora. Apesar dos problemas de saúde, ele não gostava de frequentar médicos. Além disso, também evitava usar shorts e camisetas.  

“Lourival tomava muito cuidado pra não ser visto nu, tanto que para tomar banho ele trancava a porta do quarto e trancava a porta do banheiro. Para dormir, ele dormia de calça e de cinto muito apertado”, explicou a delegada.  

Para seus vizinhos, ele dizia ter nascido em Palmeira dos Índios, em Alagoas. Porém, em seu leito de morte, revelou para a cuidadora seu nome de nascença (Edineia Maria de Jesus) e que seus pais chamavam Cícero Gomes da Silva e Tertuliana Maria de Jesus.

Ele também informou o nome dos seus irmãos: José Gomes da Silva, Antonio Gomes da Silva, Sebastião Gomes da Silva, Juvenal Gomes da Silva e Gersina Maria de Jesus. Lourival revelou, ainda, que nasceu em Bom Conselho, interior do Pernambuco.  

Com base nessas informações, as investigações se voltaram para essas duas cidades, porém, não há registro em nenhuma delas de nenhuma criança que nasceu com o nome de Enedina Maria de Jesus.  

Bezerra de Sá disse que perdeu seus documentos ao longo dos anos, sobrando apenas seu CPF, já com seu nome masculino. Com isso, suas digitais foram coletadas e comparadas com o banco de dados de diversos Estados.  

“Rio Grande do Sul, Pernambuco, Mato Grosso, Tocantins, Paraná, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Goiás, já nos 'responderam’, e a resposta deles é negativa, que não foi identificado, ou seja, aquelas impressões digitais não foram encontradas nos cadastros desses estados”, informou Maurilton Ferreira de Souza, diretor do Instituto de Identificação de Mato Grosso do Sul. 

Paternidade?

Outro ponto levantado nessa história toda é a origem dos filhos de Lourival. Afinal, quem são seus pais verdadeiros? 

"Enquanto filha, muito difícil, uma história muito complicada, porque até então, cresci achando que meu pai chamava Lourival, tá lá como pai, aí quando faleceu, era uma mulher. Ou seja, então, eu não tenho pai, eu não tenho mãe. Aí estamos aguardando o resultado de um DNA pra saber se um de nós somos filhos da Lourival Bezerra de Sá, como mulher, que pode ser mãe, né, e também da Maria Olinda”, declarou uma das filhas de Lourival, Glaydiany Apollo de Sá. 

“Ela também deve ter uma história, ter um nome, é uma pessoa. Se cometeu algum erro ou não, não pode ser enterrada como indigente. Eu não desejo isso pra ela”, disse Galydiany. 

'Aventuras na História'